Monday, August 10, 2009
Thursday, August 6, 2009
Choveu no último dia.
As nuvens a dissolverem-se sobre as nossas cabeças e o metro fechado.
Choveu, como as lágrimas que chorámos em cima da roupa atirada à pressa para dentro da mala. Os beijos, os olhares, as promessas, os corpos sôfregos de união e o tempo obstinado a separá-los.
O amor a adiar a despedida.
A água escorria pela tua mão pousada na superfície seca do vidro da janela. O desespero impotente de um gesto perante o espaço e o tempo. O teu corpo a esmorecer à medida que o teu olhar focava cada vez mais longe o farrapo que eu era.
Eu, um miserável apêndice de uma mala de viagem.
A mirrar. Um balão atado por uma criança ao ferro da cama, e esquecido. Eu era esse balão, aquilo que existia para além de nós, era a criança.
O espaço em mim a consumir-se e a sua superfície a enrugar.
A cidade uma última vez e as nuvens. A tua sombra distendida pelo soalho em frente à janela.
Na cabeça, os beijos, os olhares, as promessas… As palavras inconcebíveis.
E o tempo e o espaço, e o universo para além de nós.
Implacáveis.
Monday, August 3, 2009
Sunday, August 2, 2009
A velha vestida de preto está parada, imóvel entre as árvores carbonizadas do cemitério. As chamas devoraram as cruzes e as fotografias que jaziam nas campas, e não podendo trespassar a frieza da pedra, uniram-se num calor imenso que matou os mortos pela segunda vez. A alvura sepulcral do mármore é agora negra.
Os olhos da velha olham de frente os seus pensamentos, indiferentes. De perfil vê-se a transparência do seu olho, o espaço vítreo logo a seguir à íris: a tristeza concentra-se aí, no sítio onde os pensamentos e os desejos que emanam da sua cabeça chocam com a realidade que os seus olhos vêem. A velha sabe que a negritude da cena é apenas a expansão do sentimento que habita dentro de si. Também a ela já lhe apeteceu por várias vezes fazer do corpo uma tocha e incendiar o mundo. Tenho o dever de viver. Não posso impedir a morte, não posso obrigar o amor… Subjugar-me a toda estas leis mundanas, perceber no fim de que não passo de um acto de presunção que Deus executou ao sexto dia. A grandiosidade da criação levada aos ombros pela tacanhez humana. Sim. Dever. A nossa impotência é o resultado da omnipotência de Deus.
Pisa a camada fofa de cinza e atravessa a ponte. Observa as suas pegadas solitárias. A cidade ao longe parece-lhe absurda, a sucessão de dias, a repetição nascer do sol pôr do sol, os subterfúgios que a humanidade inventou para se demarcar como animal civilizado, parecem-lhes absurdos. Tudo lhe parece tão despropositado, tão vazio, que a melhor resposta ao sol quando nasce é deitar-se a velha a desejar que a morte lhe chegue. Provavelmente não aguentarei até ao fim, pensa. Talvez um dia crave, com toda a sua resignação fingida, a navalha no pescoço. O sangue a espirrar ao ritmo dos últimos batimentos do seu coração e no final uma mancha vermelha contrastando com as cinzas da cidade.
A velha poderia rezar, mas ao oitavo dia Deus todo poderoso fugiu desta terra com a roupa que trazia no corpo.
Thursday, June 18, 2009
Vens e pedes para pousar a cabeça no meu colo sem perguntas. Apenas que te afague o cabelo sem palavras ou outra qualquer tentativa ridícula de te salvar da vida. Enquanto sinto a tua nuca de cabelo macio na palma da minha mão, tu choras. Procuras um lugar onde possas proteger-te do produto da tua existência que não seja a solidão de uma almofada. A desolação de atravessar fronteiras tendo como única companhia uma consciência intranquila, que te martiriza com aquelas perguntas que me pedes que não faça.
Sabes que não tenho o amor suficiente para te oferecer o mundo na palma da mão. Essa é uma utopia própria daqueles que amam. Limito-me a amparar o teu sofrimento com o meu corpo. De uma forma ou de outra, já deixei de acreditar na salvação e, não sendo um e outro a mesma coisa, também no amor.
Sunday, May 10, 2009
Voltou a chover. A água estala contra a vidraça e quebra o meu silêncio.
Não durmo há várias noites e tenho saudades. O melhor do sono é acordar. Aqueles breves segundos em que abro os olhos e mexo os pés mas não tenho consciência da vida. Uma espécie de loucura fugaz, talvez. Por isso julgo os loucos donos de uma felicidade infinita, um corpo que vive inconsciente. A vida como um grande parque infantil. E eu sinto-me enlouquecer. A afastar-me cada vez mais do mundo, com uma serenidade que só a inconsequência permite.
A empregada da limpeza vem às sextas feiras. Apercebo-me do tempo quando ouço a chave dela na fechadura. Não sei que dia é hoje. No cinzeiro jazem os 8 maços de tabaco que lhe pedi que me comprasse antes que partisse para férias. Cigarros fumados e apagados e voltados a fumar até à beata. Ontem fumei a última e desde então desejo que a próxima hora seja sexta feira. A tampa do gira-discos está aberta e sob uma fina película de pó que cobre o disco, a agulha permanece imóvel no fim da última música. O lixo e os pratos por lavar vão-se acumulando e a minha última refeição rápida terminou muito antes dos cigarros.
Desisti de sair. Tenho tudo aqui. As tuas fotos e o teu nome que já não pisca no ecrã do meu computador. Aproximo-me da janela e através da roupa estendida desde sexta feira vejo o tapete de musgo que cresceu debaixo do meu carro. Hoje o rio está tão cinzento quanto a cidade da outra margem. As pingas caem grossas e ensopam a roupa de um homem de preto parado no pontão. Vejo as suas costas soluçar e adivinho que chora. Tem os braços caídos ao lado do corpo. Já não limpa as lágrimas que se misturam com a chuva e lhe escorrem pela cara abaixo. Aceitou a sua fragilidade e desistiu.
Aquele homem vai atirar-se ao rio. Já não é ninguém.
Sunday, May 3, 2009
Paciência
Capacidade para esperar por aquilo que se quer que aconteça, mas que pode, de facto, nunca vir a acontecer.