Tuesday, July 12, 2011
Saturday, December 4, 2010
Saturday, February 6, 2010
A mulher sabia. Todos os dias, quando o sol tocava a planície em frente ao monte, ela sentava-se na cadeira baixa ao lado do lume de chão. E todos os dias, a sala escurecia à medida que o homem se aproximava. Primeiro eram os seus passos na terra seca, depois, a sombra no chão crescendo lentamente até tapar a última luz do dia. Subia o poial e ali ficava, imóvel. Na penumbra da divisão, as ombreiras da porta enquadravam o céu numa explosão de cores de fim de tarde que contrastava com a silhueta negra do homem: a boina desmazelada na cabeça, a mão calejada a afastar as fitas da entrada. Então a mulher interrompia a renda que adiantava e olhava-o. Nunca pôde ver a expressão do marido, mas adivinhava-a. Baixava a cabeça e levantava-se sem uma palavra, e sem uma palavra ele sentava-se à mesa posta. A boina desmazelada, a mão na colher e os olhos no movimento do caço com que a mulher vertia o caldo sobre as sopas de pão.
Deitaram-se. Nessa noite, igual a tantas outras noites em que o céu é o silêncio abaulado sobre a cama de casal, a vida fez justiça pelas suas próprias mãos e parou-lhe finalmente o coração. A cama a ranger, o corpo do homem a contorcer-se, as rugas da face vincadas num gesto imenso de dor, os olhos vermelhos de sangue. E ao lado, a mulher a fingir que dorme. Fingindo, espera a absolvição de Deus, pois a vontade é pôr-se ela a olhar nos olhos do moribundo com o ódio de uma vida. Responder ao desespero do marido com a mesma impassibilidade com que ele aumentou o seu desespero. A mulher sabia que este dia acabaria por chegar. Sente a irreversibilidade dos anos gastos a baterem-lhe no peito. A mulher sabia mas nunca acreditou, e agora, de olhos fixos à escuta do último movimento agonizante, espera viver os poucos anos de vida que lhe restam.
Tuesday, December 8, 2009
Friday, December 4, 2009
O homem aproxima-se, “esta cidade é grande demais para que nos possamos encontrar”. Olho-o de perto e o grande elástico que é o tempo atiram-me para trás. Aflita, finjo uma serenidade que não existe dentro de mim. “E contudo, aqui estamos”, respondo. Sorriu. As minhas palavras e as imagens que lhe passavam atrás do olhos baços, a desenharem-lhe o escárnio nos lábios. O corpo no farrapo em que a vida o havia convertido. “Porquê?”. Baixei a cabeça tentando disfarçar a dor que aquela interrogação comportava. “Há silêncios que se interpõem entre nós até que se tornam num imenso vazio”. E há vazios que não podem jamais ser preenchidos, vão-se instalando, como a maré que vai subindo e tapando progressivamente a areia. Abandonei-o ao pôr do sol, deitado na cama que fora nossa por tantos e tantos anos. Continuar ali deitada era protelar um sofrimento para escapar ao sofrimento do fim. Defronte um do outro, olhamo-nos agora com a resignação que a vida traz aos acontecimentos passados. Baixa o olhar, vira-me as costas e afasta-se pelo mesmo caminho por onde veio. O vazio entre nós e o silêncio da sua resposta a preenchê-lo.