Saturday, February 6, 2010

A mulher sabia. Todos os dias, quando o sol tocava a planície em frente ao monte, ela sentava-se na cadeira baixa ao lado do lume de chão. E todos os dias, a sala escurecia à medida que o homem se aproximava. Primeiro eram os seus passos na terra seca, depois, a sombra no chão crescendo lentamente até tapar a última luz do dia. Subia o poial e ali ficava, imóvel. Na penumbra da divisão, as ombreiras da porta enquadravam o céu numa explosão de cores de fim de tarde que contrastava com a silhueta negra do homem: a boina desmazelada na cabeça, a mão calejada a afastar as fitas da entrada. Então a mulher interrompia a renda que adiantava e olhava-o. Nunca pôde ver a expressão do marido, mas adivinhava-a. Baixava a cabeça e levantava-se sem uma palavra, e sem uma palavra ele sentava-se à mesa posta. A boina desmazelada, a mão na colher e os olhos no movimento do caço com que a mulher vertia o caldo sobre as sopas de pão.

Deitaram-se. Nessa noite, igual a tantas outras noites em que o céu é o silêncio abaulado sobre a cama de casal, a vida fez justiça pelas suas próprias mãos e parou-lhe finalmente o coração. A cama a ranger, o corpo do homem a contorcer-se, as rugas da face vincadas num gesto imenso de dor, os olhos vermelhos de sangue. E ao lado, a mulher a fingir que dorme. Fingindo, espera a absolvição de Deus, pois a vontade é pôr-se ela a olhar nos olhos do moribundo com o ódio de uma vida. Responder ao desespero do marido com a mesma impassibilidade com que ele aumentou o seu desespero. A mulher sabia que este dia acabaria por chegar. Sente a irreversibilidade dos anos gastos a baterem-lhe no peito. A mulher sabia mas nunca acreditou, e agora, de olhos fixos à escuta do último movimento agonizante, espera viver os poucos anos de vida que lhe restam.

Tuesday, December 8, 2009

Não podia fechar os olhos. No negro das pálpebras fechadas surgia-lhe repetidamente a imagem ampliada: o momento em que os seus lábios se tocaram num beijo demorado. Era o ciúme que não o deixava dormir. Amava-a. Agora que os tinha visto atrás da nora, sabia que a amava. Sabia também que os sorrisos abafados e os olhares trocados, não passavam de meras ilusões em que acreditava para se manter vivo. E agora, aquilo, atirado como pedras a esmagarem-lhe o peito. A conhecer o seu destino mas a não querer acreditar nele, a estender a mão e a encontrar o frio e o vazio onde antes tinha imaginado o seu corpo. Só a morte lhe daria a tranquilidade negra das pálpebras fechadas. Não a podendo ter, desejava-a.

Friday, December 4, 2009

A padeira está à porta. Vê quem passa enquanto avanço em direcção à luminosidade característica das avenidas novas. Cruzo-me com o filho do senhor da agência funerária que espera de mochila às costas que o pai o leve à escola, e respondo com um olá bom dia, ao cumprimento que o indiano me dirige enquanto abre a drogaria. Desço as escadas do metro a correr e no minuto que falta até à chegada do próximo comboio leio algumas linhas que se convertem em algumas páginas quando chego à última estação. Cais do Sodré. No cimo das escadas rolantes espera-me o cheiro desagradável vindo do supermercado e as mulheres às quais recuso os jornais gratuitos. Apanho o barco para a outra margem cinzenta. Sobre as águas do Tejo, vejo Lisboa a afastar-se. Primeiro com pormenor, depois uma vista panorâmica de casas encavalitadas sobre as colinas.
O homem aproxima-se, “esta cidade é grande demais para que nos possamos encontrar”. Olho-o de perto e o grande elástico que é o tempo atiram-me para trás. Aflita, finjo uma serenidade que não existe dentro de mim. “E contudo, aqui estamos”, respondo. Sorriu. As minhas palavras e as imagens que lhe passavam atrás do olhos baços, a desenharem-lhe o escárnio nos lábios. O corpo no farrapo em que a vida o havia convertido. “Porquê?”. Baixei a cabeça tentando disfarçar a dor que aquela interrogação comportava. “Há silêncios que se interpõem entre nós até que se tornam num imenso vazio”. E há vazios que não podem jamais ser preenchidos, vão-se instalando, como a maré que vai subindo e tapando progressivamente a areia. Abandonei-o ao pôr do sol, deitado na cama que fora nossa por tantos e tantos anos. Continuar ali deitada era protelar um sofrimento para escapar ao sofrimento do fim. Defronte um do outro, olhamo-nos agora com a resignação que a vida traz aos acontecimentos passados. Baixa o olhar, vira-me as costas e afasta-se pelo mesmo caminho por onde veio. O vazio entre nós e o silêncio da sua resposta a preenchê-lo.

Thursday, October 8, 2009

Não procures nos sinais que pensas ver na vida, uma profecia para o teu destino. As tuas previsões estão viciadas pelos teus sentimentos, e o que será de ti está inscrito em todos os átomos de carbono que te rodeiam. Ininteligíveis portanto à percepção humana do futuro, e conclusivos à percepção humana do passado.

Wednesday, September 23, 2009


Quando não se sabe o que fazer, o que é que se faz?

Wednesday, August 26, 2009

Monday, August 10, 2009

Não se pode reconhecer uma chinesa pelos pés,
mas pode-se adivinhar um homem pelo cheiro.