Tuesday, December 8, 2009

Não podia fechar os olhos. No negro das pálpebras fechadas surgia-lhe repetidamente a imagem ampliada: o momento em que os seus lábios se tocaram num beijo demorado. Era o ciúme que não o deixava dormir. Amava-a. Agora que os tinha visto atrás da nora, sabia que a amava. Sabia também que os sorrisos abafados e os olhares trocados, não passavam de meras ilusões em que acreditava para se manter vivo. E agora, aquilo, atirado como pedras a esmagarem-lhe o peito. A conhecer o seu destino mas a não querer acreditar nele, a estender a mão e a encontrar o frio e o vazio onde antes tinha imaginado o seu corpo. Só a morte lhe daria a tranquilidade negra das pálpebras fechadas. Não a podendo ter, desejava-a.

Friday, December 4, 2009

A padeira está à porta. Vê quem passa enquanto avanço em direcção à luminosidade característica das avenidas novas. Cruzo-me com o filho do senhor da agência funerária que espera de mochila às costas que o pai o leve à escola, e respondo com um olá bom dia, ao cumprimento que o indiano me dirige enquanto abre a drogaria. Desço as escadas do metro a correr e no minuto que falta até à chegada do próximo comboio leio algumas linhas que se convertem em algumas páginas quando chego à última estação. Cais do Sodré. No cimo das escadas rolantes espera-me o cheiro desagradável vindo do supermercado e as mulheres às quais recuso os jornais gratuitos. Apanho o barco para a outra margem cinzenta. Sobre as águas do Tejo, vejo Lisboa a afastar-se. Primeiro com pormenor, depois uma vista panorâmica de casas encavalitadas sobre as colinas.
O homem aproxima-se, “esta cidade é grande demais para que nos possamos encontrar”. Olho-o de perto e o grande elástico que é o tempo atiram-me para trás. Aflita, finjo uma serenidade que não existe dentro de mim. “E contudo, aqui estamos”, respondo. Sorriu. As minhas palavras e as imagens que lhe passavam atrás do olhos baços, a desenharem-lhe o escárnio nos lábios. O corpo no farrapo em que a vida o havia convertido. “Porquê?”. Baixei a cabeça tentando disfarçar a dor que aquela interrogação comportava. “Há silêncios que se interpõem entre nós até que se tornam num imenso vazio”. E há vazios que não podem jamais ser preenchidos, vão-se instalando, como a maré que vai subindo e tapando progressivamente a areia. Abandonei-o ao pôr do sol, deitado na cama que fora nossa por tantos e tantos anos. Continuar ali deitada era protelar um sofrimento para escapar ao sofrimento do fim. Defronte um do outro, olhamo-nos agora com a resignação que a vida traz aos acontecimentos passados. Baixa o olhar, vira-me as costas e afasta-se pelo mesmo caminho por onde veio. O vazio entre nós e o silêncio da sua resposta a preenchê-lo.

Thursday, October 8, 2009

Não procures nos sinais que pensas ver na vida, uma profecia para o teu destino. As tuas previsões estão viciadas pelos teus sentimentos, e o que será de ti está inscrito em todos os átomos de carbono que te rodeiam. Ininteligíveis portanto à percepção humana do futuro, e conclusivos à percepção humana do passado.

Wednesday, September 23, 2009


Quando não se sabe o que fazer, o que é que se faz?

Wednesday, August 26, 2009

Monday, August 10, 2009

Não se pode reconhecer uma chinesa pelos pés,
mas pode-se adivinhar um homem pelo cheiro.

Thursday, August 6, 2009

Choveu no último dia.

As nuvens a dissolverem-se sobre as nossas cabeças e o metro fechado.

Choveu, como as lágrimas que chorámos em cima da roupa atirada à pressa para dentro da mala. Os beijos, os olhares, as promessas, os corpos sôfregos de união e o tempo obstinado a separá-los.

O amor a adiar a despedida.

A água escorria pela tua mão pousada na superfície seca do vidro da janela. O desespero impotente de um gesto perante o espaço e o tempo. O teu corpo a esmorecer à medida que o teu olhar focava cada vez mais longe o farrapo que eu era.

Eu, um miserável apêndice de uma mala de viagem.

A mirrar. Um balão atado por uma criança ao ferro da cama, e esquecido. Eu era esse balão, aquilo que existia para além de nós, era a criança.

O espaço em mim a consumir-se e a sua superfície a enrugar.

A cidade uma última vez e as nuvens. A tua sombra distendida pelo soalho em frente à janela.

Na cabeça, os beijos, os olhares, as promessas… As palavras inconcebíveis.

E o tempo e o espaço, e o universo para além de nós.

Implacáveis.