Thursday, June 18, 2009

Vens e pedes para pousar a cabeça no meu colo sem perguntas. Apenas que te afague o cabelo sem palavras ou outra qualquer tentativa ridícula de te salvar da vida. Enquanto sinto a tua nuca de cabelo macio na palma da minha mão, tu choras. Procuras um lugar onde possas proteger-te do produto da tua existência que não seja a solidão de uma almofada. A desolação de atravessar fronteiras tendo como única companhia uma consciência intranquila, que te martiriza com aquelas perguntas que me pedes que não faça.

Sabes que não tenho o amor suficiente para te oferecer o mundo na palma da mão. Essa é uma utopia própria daqueles que amam. Limito-me a amparar o teu sofrimento com o meu corpo. De uma forma ou de outra, já deixei de acreditar na salvação e, não sendo um e outro a mesma coisa, também no amor.

Sunday, May 10, 2009

Voltou a chover. A água estala contra a vidraça e quebra o meu silêncio.

Não durmo há várias noites e tenho saudades. O melhor do sono é acordar. Aqueles breves segundos em que abro os olhos e mexo os pés mas não tenho consciência da vida. Uma espécie de loucura fugaz, talvez. Por isso julgo os loucos donos de uma felicidade infinita, um corpo que vive inconsciente. A vida como um grande parque infantil. E eu sinto-me enlouquecer. A afastar-me cada vez mais do mundo, com uma serenidade que só a inconsequência permite.

A empregada da limpeza vem às sextas feiras. Apercebo-me do tempo quando ouço a chave dela na fechadura. Não sei que dia é hoje. No cinzeiro jazem os 8 maços de tabaco que lhe pedi que me comprasse antes que partisse para férias. Cigarros fumados e apagados e voltados a fumar até à beata. Ontem fumei a última e desde então desejo que a próxima hora seja sexta feira. A tampa do gira-discos está aberta e sob uma fina película de pó que cobre o disco, a agulha permanece imóvel no fim da última música. O lixo e os pratos por lavar vão-se acumulando e a minha última refeição rápida terminou muito antes dos cigarros.

Desisti de sair. Tenho tudo aqui. As tuas fotos e o teu nome que já não pisca no ecrã do meu computador. Aproximo-me da janela e através da roupa estendida desde sexta feira vejo o tapete de musgo que cresceu debaixo do meu carro. Hoje o rio está tão cinzento quanto a cidade da outra margem. As pingas caem grossas e ensopam a roupa de um homem de preto parado no pontão. Vejo as suas costas soluçar e adivinho que chora. Tem os braços caídos ao lado do corpo. Já não limpa as lágrimas que se misturam com a chuva e lhe escorrem pela cara abaixo. Aceitou a sua fragilidade e desistiu.

Aquele homem vai atirar-se ao rio. Já não é ninguém.

Sunday, May 3, 2009

Paciência

Capacidade para esperar por aquilo que se quer que aconteça, mas que pode, de facto, nunca vir a acontecer.

Sunday, April 26, 2009

Na palma da mão colocada sob o peito, sinto o ténue batimento do meu coração. Livre de emoções, o meu metabolismo despende apenas a energia necessária às funções vitais – respirar, ler e escrever.

Thursday, April 16, 2009

Quando nos mudámos para a casa nova eu nunca tinha tido uma escrivaninha.

Fazia os trabalhos de casa à braseira e não fossem os livros que punha por baixo da folha de papel, as composições sairiam com o padrão do naperon que cobria a camila.

Punha-me de joelhos em cima do sofá vermelho de napa rasgada. Para mim sempre foi de napa rasgada. A minha mãe dizia que aqueles rasgos os tinha feito ela, de tanto apoiar a mão no assento para se levantar com os filhos ao colo. A minha mãe teve três filhos. Eu sou a terceira.

Numa véspera de natal o meu pai desfez-me a primeira ilusão da vida. Estávamos sentados no sofá vermelho de napa rasgada e o pai natal não vinha. Eu perguntava por ele com a mesma persistência com que uma criança pergunta quando lhe dão o brinquedo que lhe prometeram. Cala-te que o pai natal não existe. Não acrescentou e deixa-me ver a televisão em paz, mas a intenção estava em todas as sílabas que saíram da sua boca. Tinha seis anos.

A severidade e a segurança da sentença foi tal, que não fiz mais perguntas. Até hoje nunca mais voltei a acreditar no pai natal e gostava que em muitas situações da minha vida, houvesse um pai que me desiludisse de todas as ilusões que vou criando com a mesma eficácia: pela raiz.

Quando nos mudámos para a casa nova, a nossa cozinha deixou de ter vista para o outeiro e para os ciprestes. Deixámos de ter a rua e a amoreira que nos alimentava a nós e aos bichos da seda, e passámos a desejar que não houvesse roupa estendida no quintal que pudesse comprometer os pontapés que dávamos numa bola a imitar o couro barato.

Eu nunca tinha tido uma escrivaninha. Marcava horas para me sentar nela como se ocupasse um qualquer cargo importante. Acho que era secretária. E pintava. E tentava traduzir para inglês um livro que trouxe da carrinha que tinha a mesma cor do sofá de napa rasgada, e que dizia Fundação Calouste Gulbenkian. Ia para o ciclo, tinha escolhido inglês, e na minha cabeça acreditava que nunca o conseguiria aprender.

Numa tarde abrasadora, enquanto todos dormiam a sesta, abri o livro e uma das primeiras palavras a traduzir era começou. Descobri no dicionário a sua equivalente, mas não estando completamente segura decidi confirmar com a minha irmã. O que quer dizer "begin"? A minha irmã dormia a sesta e não estava interessada em nada mais que uma boa sesta. E eu insisti. Repeti tantas vezes que a interrrogação pôs toda a casa em alvoroço. O meu pai, com os mesmos calções que ainda hoje usa nas suas sestas de Verão, pegou no chinelo e resolveu a questão. Não que me tivesse respondido. Aquela chinelada no rabo mesmo que indolor, mostrou-me que uma boa sesta tem sempre prioridade relativamente ao conhecimento, por mais urgente que ele seja.

Como um cão que salta à espera de uma festa, hoje tenho à frente um cursor que pisca diante dos meus olhos ansioso por deixar um rasto de palavras. Às vezes as palavras que saem de mim não têm nada para dizer ou não conseguem dizer nada. A palavra não é o meio mais eficaz de dizer.

Já não temos o sofá vermelho de napa rasgada e da minha janela da cozinha vejo a cidade. Não foi a minha vila que cresceu. Fui eu.

Thursday, April 9, 2009

A personificação feminina do arcanjo Rafael disse:

Partes a cabeça e vais para o céu.

 

Simples. E sem grandes demoras.

Wednesday, April 8, 2009

O céu está azul. Reparo pelo contraste que faz com os tijolos do Campo Pequeno. A rasgar o céu, um rasto branco de avião. Tu voas. Não naquele rasto que me parece de quem chega, mas noutro. Que tu ainda agora vais. Preciso de comprar um livro para matar a tua falta. A luz cai limpa pela praça e as crianças brincam, e há gente que lê nos bancos ou que simplesmente se senta nos bancos. Trago comigo a música que tu cantas com voz de borboleta. O meu corpo responde à harmonia dos elementos: sinto os pêlos que se levantam e se espetam na roupa. Horas e dias vazios, queimados à espera de uma vida que valha a pena. Ri-me quando vi escrito numa parede que o caminho não é a felicidade: a felicidade é o caminho. Tenho a ambição de querer sempre o poder do universo personificado nos meus pêlos. A dicotomia do ou sempre ou nunca. E esta teimosia, faz-me reduzir a nada, os tudo fugazes.