Friday, April 22, 2016

Estamos a actualizar o passado


Por favor aguarde

Saturday, March 12, 2016

Horóscopo

Sábado, 12 de Março de 2016
Escorpião:
Ocorreu um erro. Tente novamente mais tarde.

Friday, February 19, 2016

Ideia para a salvação nacional:
indexar o crescimento económico à estupidez humana.
Perante a passividade de Deus neste mundo em que a moralidade se encontra em declínio, começo a acreditar na necessidade de fazer justiça com as próprias mãos.

Wednesday, December 2, 2015

I am in love with shadows

Wednesday, September 30, 2015

Fui-me embora e deixei a Amália a cantar sozinha

Wednesday, September 16, 2015

Escrevo com o lápis frases invisíveis
E apago-as
Para que ninguém as possa ler

Thursday, August 27, 2015

Monday, February 23, 2015

L. pensa que não existe nada que se possa opor ao amor.
Está prestes a sentir a perda.

Monday, February 17, 2014

Monday, March 4, 2013

Acordei com a faca espetada no peito. Testei os meus músculos na esperança de que estes fossem incapazes de vencer a inércia dos meus 50 kg espalhados pela cama. A fisiologia maquinal, insensível às fraquezas do espírito.
A roupa despida e amontoada no chão ontem à noite, toma forma no meu corpo. Venço-me a cada passo. Lá fora, para além destas paredes, há um mundo ao qual não escolhi pertencer.

Friday, February 15, 2013


É noite de ano novo. Ouço os passos e as vozes alegres dos rapazes e das raparigas a caminho da praça. O vazio deste quarto é agora impossível de preencher pela vida que vai lá fora, parece que as paredes desta casa se tornaram impermeáveis a toda e qualquer esperança. Talvez seja melhor assim.
Os meus filhos telefonaram agora e desejaram-me feliz ano novo. Foi com muito custo que consegui atender o telefone, as dores atravessam-me o corpo em cada vez mais sítios. Quando era nova pensava em que pensaria um velho quando sabe que vai morrer. E lembro-me de quando tomei consciência de que a morte é um acontecimento certo, a que não se pode escapar como se escapa, com um pouco de sorte à doença ou à felicidade. Sou agora velha, e sei que um velho pensa sempre que vê a luz do sol a extinguir-se, que quer viver mais um dia.

Preparei o café instantâneo enquanto ouvia o zumbido da chaleira e fui-me encostar à janela com o silêncio dos barcos que fazem a travessia do rio nas minhas costas. Suportei a minha vida o tempo suficiente para que ninguém se lembrasse já de mim, mas agora que acabei de deixar a minha mãe morta no cemitério, já não existe nada neste mundo que não possa suportar a minha perda.

O meu filhos telefonaram e mesmo sabendo que não viverei muito mais tempo desejaram-me feliz ano novo. Não esperam que eu morra, fazem contas a quantos anos eu ainda durarei para saberem que idade terão eles nessa altura. Mesmo que não venham aqui muito, trata-se de uma perda, e as perdas põem-se sempre no final da mais longa fila. Embora já não consiga calar este cansaço que trago sempre no peito, disfarcei a voz de uma leveza que não trago, para lhes mentir. Disse-lhes que também eu iria à praça. De lá chega-me agora à cama o cheiro do porco a assar no espeto, e as vozes das pessoas que festejam.

Havia gente a correr pelos passeios dando gritos de entusiasmo. Festejavam num planeta cuja viabilidade dependia da extinção do Homem. No que me cabia, fiz a minha parte. Quando os primeiros foguetes formaram nas minhas costas uma tentativa estética, agarrei na faca de cozinha e num movimento seco, espetei-a no sítio exacto onde tantas vezes senti mais tristeza que amor. Lembro-me do som da lâmina a bater no osso e a deslizar, à procura de carne onde pudesse chegar mais fundo. O sangue e uma súbita falta de ar. O meu corpo arqueado e o cabo da navalha espetado entre as costelas. Não encontrei razão alguma que me fizesse arrepender, fechei os olhos e tranquei a respiração: não podia ser tão idiota que quisesse sobreviver.

É quase meia-noite. Levanto-me e sinto o frio do chão nos meus pés descalços. As casas brancas que sempre estiveram alinhadas em frente à minha janela parecem agora querer dispersar. Apoio a minha velha mão sobre a cal rugosa da parede. É ano novo, os foguetes estalam no ar e fazem mudar várias vezes de cor a minha camisa de dormir branca. Curvo-me sobre mim própria, como me curvei um dia sobre o corpo do meu marido, numa última tentativa de vivermos. Caio, e de repente falta-me o ar. Ouço ao longe o telefone. Serão certamente os meus filhos e os seus desejos utópicos de quem tem muitos fins de tarde pela frente. Fecho os olhos e em vão, agarro-me à última réstia de ar. O telefone parou de tocar.

Saturday, December 8, 2012

"Criatividade urbana" - ON.OFF

Monday, December 3, 2012

Friday, September 14, 2012


Quando a subsistência e a dignidade humana estão em causa, deve:
o estado limitar o número de nascimentos, deve:
a natureza escolher os mais fortes,
ou deve o homem suicidar-se em frente ao parlamento.

Friday, August 19, 2011

Tuesday, July 12, 2011

Nem melhor. Nem pior.
Bípede.

Saturday, December 4, 2010

A generosidade de uma mãe na impossibilidade deste mundo que ela própria vive. Filha de que é que precisas?

Saturday, February 6, 2010

A mulher sabia. Todos os dias, quando o sol tocava a planície em frente ao monte, ela sentava-se na cadeira baixa ao lado do lume de chão. E todos os dias, a sala escurecia à medida que o homem se aproximava. Primeiro eram os seus passos na terra seca, depois, a sombra no chão crescendo lentamente até tapar a última luz do dia. Subia o poial e ali ficava, imóvel. Na penumbra da divisão, as ombreiras da porta enquadravam o céu numa explosão de cores de fim de tarde que contrastava com a silhueta negra do homem: a boina desmazelada na cabeça, a mão calejada a afastar as fitas da entrada. Então a mulher interrompia a renda que adiantava e olhava-o. Nunca pôde ver a expressão do marido, mas adivinhava-a. Baixava a cabeça e levantava-se sem uma palavra, e sem uma palavra ele sentava-se à mesa posta. A boina desmazelada, a mão na colher e os olhos no movimento do caço com que a mulher vertia o caldo sobre as sopas de pão.

Deitaram-se. Nessa noite, igual a tantas outras noites em que o céu é o silêncio abaulado sobre a cama de casal, a vida fez justiça pelas suas próprias mãos e parou-lhe finalmente o coração. A cama a ranger, o corpo do homem a contorcer-se, as rugas da face vincadas num gesto imenso de dor, os olhos vermelhos de sangue. E ao lado, a mulher a fingir que dorme. Fingindo, espera a absolvição de Deus, pois a vontade é pôr-se ela a olhar nos olhos do moribundo com o ódio de uma vida. Responder ao desespero do marido com a mesma impassibilidade com que ele aumentou o seu desespero. A mulher sabia que este dia acabaria por chegar. Sente a irreversibilidade dos anos gastos a baterem-lhe no peito. A mulher sabia mas nunca acreditou, e agora, de olhos fixos à escuta do último movimento agonizante, espera viver os poucos anos de vida que lhe restam.

Tuesday, December 8, 2009

Não podia fechar os olhos. No negro das pálpebras fechadas surgia-lhe repetidamente a imagem ampliada: o momento em que os seus lábios se tocaram num beijo demorado. Era o ciúme que não o deixava dormir. Amava-a. Agora que os tinha visto atrás da nora, sabia que a amava. Sabia também que os sorrisos abafados e os olhares trocados, não passavam de meras ilusões em que acreditava para se manter vivo. E agora, aquilo, atirado como pedras a esmagarem-lhe o peito. A conhecer o seu destino mas a não querer acreditar nele, a estender a mão e a encontrar o frio e o vazio onde antes tinha imaginado o seu corpo. Só a morte lhe daria a tranquilidade negra das pálpebras fechadas. Não a podendo ter, desejava-a.