Friday, April 22, 2016
Saturday, March 12, 2016
Friday, February 19, 2016
Wednesday, December 2, 2015
Wednesday, September 30, 2015
Wednesday, September 16, 2015
Thursday, August 27, 2015
Monday, February 23, 2015
Monday, February 17, 2014
Monday, March 4, 2013
A roupa despida e amontoada no chão ontem à noite, toma forma no meu corpo. Venço-me a cada passo. Lá fora, para além destas paredes, há um mundo ao qual não escolhi pertencer.
Friday, February 15, 2013
Saturday, December 8, 2012
Monday, December 3, 2012
Friday, September 14, 2012
Friday, August 19, 2011
Tuesday, July 12, 2011
Saturday, December 4, 2010
Saturday, February 6, 2010
A mulher sabia. Todos os dias, quando o sol tocava a planície em frente ao monte, ela sentava-se na cadeira baixa ao lado do lume de chão. E todos os dias, a sala escurecia à medida que o homem se aproximava. Primeiro eram os seus passos na terra seca, depois, a sombra no chão crescendo lentamente até tapar a última luz do dia. Subia o poial e ali ficava, imóvel. Na penumbra da divisão, as ombreiras da porta enquadravam o céu numa explosão de cores de fim de tarde que contrastava com a silhueta negra do homem: a boina desmazelada na cabeça, a mão calejada a afastar as fitas da entrada. Então a mulher interrompia a renda que adiantava e olhava-o. Nunca pôde ver a expressão do marido, mas adivinhava-a. Baixava a cabeça e levantava-se sem uma palavra, e sem uma palavra ele sentava-se à mesa posta. A boina desmazelada, a mão na colher e os olhos no movimento do caço com que a mulher vertia o caldo sobre as sopas de pão.
Deitaram-se. Nessa noite, igual a tantas outras noites em que o céu é o silêncio abaulado sobre a cama de casal, a vida fez justiça pelas suas próprias mãos e parou-lhe finalmente o coração. A cama a ranger, o corpo do homem a contorcer-se, as rugas da face vincadas num gesto imenso de dor, os olhos vermelhos de sangue. E ao lado, a mulher a fingir que dorme. Fingindo, espera a absolvição de Deus, pois a vontade é pôr-se ela a olhar nos olhos do moribundo com o ódio de uma vida. Responder ao desespero do marido com a mesma impassibilidade com que ele aumentou o seu desespero. A mulher sabia que este dia acabaria por chegar. Sente a irreversibilidade dos anos gastos a baterem-lhe no peito. A mulher sabia mas nunca acreditou, e agora, de olhos fixos à escuta do último movimento agonizante, espera viver os poucos anos de vida que lhe restam.

