Thursday, October 30, 2008

Fui ao cabeleireiro. Enquanto lavo o cabelo, reparo num stencil da montra com 3 raparigas giras. De saia, de calças, com mala, sem mala, mas todas de salto alto. Concluo que, use o que usar, o salto alto faz toda a diferença na beleza de qualquer mulher.
Temo o confronto com o espelho. Sento-me e olho-me nos olhos, e à medida que vou descendo o olhar reparo, não uso saltos altos.

Wednesday, October 29, 2008

As mãos escondidas para distrair o frio que me corta o polegar. A chauffage ligada a aquecer-me as narinas. A roupa mudada e organizada por casacos curtos e compridos.
A cidade mudou a hora. É a forma que, também ela, encontrou para receber o Inverno.

Wednesday, October 15, 2008

Partilhamos o mesmo hábito, os nossos olhos esquivam-se para espreitar os livros dos outros. E foi assim que reparei em ti: tu a tentares descobrir o título do meu livro e eu o do teu. Lembro-me, lias Beckett. Hoje gostava que viesses. Tenho um livro novo que talvez te possa impressionar.

Friday, October 3, 2008

Hoje andei pelas ruas como dantes. Quando o objectivo não era chegar, era transpor o tempo que nos separava. Eu a matar o tempo, e o tempo a matar-me a mim. Não tinha para onde ir, nem ninguém. Apenas eu e os meus passos na calçada, impelidos pelas leis da Física. E em mim a vontade de mais um dia terminado, o mundo cingido ao quarto que me pertencia, mas que nunca foi meu. Depois vinha o desânimo de mais um nascer do sol, a agonia de mais um dia.
Hoje, passados tantos anos, andei pelas ruas como dantes. E ao rodar a chave na fechadura, encontro o mesmo. Vazio.

Thursday, October 2, 2008

Às vezes as pessoas são como estas cuecas lavadas que tenho na mão: desbotam quem as rodeia e ironicamente mantêm a sua cor intacta.

Tuesday, September 23, 2008

Arranquei as asas a uma mosca e ordenei-lhe que voasse.
É a conjuntura. No interior sentes a possibilidade de voar, mas tudo se organiza de modo a que apenas te sejam permitidos parcos saltos.

Monday, September 22, 2008

Hoje deitava-me num canto, enrolada de lado e com o dorso voltado para o mundo. E deixava-me ficar, até que a fome me corroesse o estômago e a sede me intumescesse a língua. Até apodrecer, como um animal que não podendo mais viver, se deita no caminho da própria morte.
Hoje morria e aguentava até ao último minuto a consciência do meu declínio.