Ouço os meus passos na calçada, enfadados com a vida sempre pelo mesmo carreiro. Hoje sei que, tal como a tartaruga de Zenão que persegue a lebre, também nós nunca alcançaremos a felicidade: por muito perto que estejamos, faltará sempre metade.
Wednesday, January 30, 2008
Thursday, January 17, 2008
Thursday, January 10, 2008
Sunday, January 6, 2008
Levantava-se com o sol e sentava-se à soleira da porta a ver o tempo passar. De vez em quando saudava com a sua mão grossa os gaiatos que passavam de bicicleta. Em breve seria absorvido pela terra. O seu coração iria deixar de bater, e o silêncio e a paz chegariam por fim ao peito. No que é que se pensa na última inspiração? Ele pensará nela. Tudo o resto foi estéril.
Sunday, December 30, 2007
Adormeceste. As nossas mãos dadas sobre o teu ventre. Sinto os teus ossos que rangem a cada respiração tua numa contagem decrescente. Sei que não te posso ter aqui para sempre.
Faço deslizar a minha mão sob a tua. Não acordas. Tenho de ir. Por não poder ter-te aqui para sempre, também eu não posso ficar.
Wednesday, December 26, 2007
Por estar vazia, a cavidade destinada aos sentimentos está a ser progressivamente ocupada pelos sistemas do meu corpo. Sinto-o nas minhas calças que me dançam nas pernas e me roçam no rabo. Estou a tornar-me um ser compacto, e por isso mirro. Em breve serei uma máquina, dependente apenas das leis da física.
Aqui as pessoas já não me reconhecem. Sorrio quando me cruzo com elas. Li que identificam os mortos pelos dentes. E pelos ossos. Mas esses, elas ainda não vêem. Ainda.
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