Thursday, June 14, 2007




- Se eu pudesse teria nascido nos 40's.
- Porquê?
- Teria o twist, a roupa tirada dos moldes das revistas, a ditadura e a revolução...
- Não me terias conhecido.
- Não se deseja aquilo que não se conhece.

Thursday, June 7, 2007

A ponta dos meus pés não indica a direcção para onde caminho. O sítio para onde vou depende do grau de afastamento dos meus passos em relação ao meu plano sagital e do sentido do deslocamento.
O facto de estar virada para o caminho certo não quer dizer que o siga.

Thursday, May 31, 2007

Nesse dia decidiu pentear-se.

Tuesday, May 29, 2007

Era todos os dias a mesma coisa. Apanhava o barco, sentava-se à sua secretária de sempre, e alinhava os pés da sua velha cadeira com as marcas deixadas no chão pela rotina. Pegava na cigarreira perfeitamente alinhada ao lado da sua Mont Blanc e fumava o primeiro cigarro do dia, olhando a cidade, procurando o que não encontrava.
Tinha herdado há muitos anos aquele posto de dragagem no meio do Tejo.
Às 12.30 em ponto a secretária trazia-lhe o almoço. Assinava alguns papéis, levantando-se apenas da cadeira às 18, hora em que apanhava o barco de regresso. Atravessava o Terreiro do Paço, subia a Rua Augusta, virava à esquerda na Rua da Betesga... não jantou na Casa Chinesa como costume. Contornou o Rossio pela esquerda, subiu a Avenida da Liberdade, virou à esquerda na Rua Barata Salgueiro, sempre sem pisar as pedras pretas da calçada.
Nessa noite chegou a casa, pôs um disco a tocar, acendeu uma vela, e ficou ali a esgravatar na memória...

Friday, May 25, 2007

Chuva silenciosa

Estão uns dias de chuva silenciosa, como se a cidade estivesse submersa.
A água impõe um ritmo lento a quem daqui faz os seus dias, e abafa todo o barulho. As buzinas sussurram e as palavras transformam-se em movimentos de boca inconsequentes. Fastidioso, o tempo que não passa.
Estão um daqueles dias em que o espelho reflecte a idade que um dia vais ter. A inquietude daquilo que não és e a saudade daquilo que já foste.
Esta água dificulta-me os movimentos e limita-me a visão.

Tuesday, May 22, 2007

Endromina-me, endromina-me mucho,
Como si fuera esta noche la última vez...

Friday, May 18, 2007

Clandestinidades

Estou sentada no meio de duas cenas. Uma criança faz uma birra de pé em cima do banco e bate repetidamente na mãe. Do outro lado dois namorados estão de mãos dadas frente a frente. Não consigo ver a cara dele, mas ouço-o dizer qualquer coisa que não percebo, e ela esboça um sorriso que vai aumentando de intensidade à medida que a frase se aproxima do fim. A criança já não faz birra. Grita agora, "Olá barco! Adeus barco à vela...". Sorrio, enquanto o senhor à minha frente escreve na agenda, 30 de Maio - greve geral.